skip to Main Content
(21) 99186-5884 contato@neurocienciasaplicadas.com.br
NEUROCIÊNCIA DO COTIDIANO: O Amor Pode Mudar O Seu Funcionamento Cerebral

NEUROCIÊNCIA DO COTIDIANO: O amor pode mudar o seu funcionamento cerebral

O amor romântico é um estado motivacional associado ao desejo de entrar ou manter um relacionamento próximo com uma outra pessoa específica (Song et al., 2015). É uma experiência altamente gratificante, e está ligado à perpetuação da espécie e, assim, têm uma função biológica de importância evolutiva crucial (Zeki, 2007). Além de desempenhar um papel na mediação de recompensa e motivação direcionada a objetivos, também pode alterar a cognição e o comportamento, como promover atenção intensamente focada no indivíduo preferido, acompanhado de euforia, desejo, obsessão, compulsão, distorção da realidade, dependência emocional, mudanças de personalidade e impulsos de riscos. Logo, é um sentimento complexo, envolvendo componentes emocionais, cognitivos e comportamentais (Song et al., 2015).

Entretanto, apenas recentemente, os neurobiologistas começaram a investigar a sua base neural (Zeki, 2007). Esses estudos indicam que a experiência amorosa ativa regiões específicas do cérebro envolvidas no processamento da recompensa, motivação e regulação da emoção, que coincidem com áreas ricas em receptores de ocitocina e vasopressina (Song et al., 2015; Zeki, 2007). Esses hormônios desativam um conjunto comum de regiões associadas a emoções negativas, julgamento social e “imaginação”, isto é, a avaliação das intenções e emoções de outras pessoas (Zeki, 2007).

Na maioria das vezes, o amor romântico é desencadeado por uma entrada visual, o que não significa que outros fatores, como voz, intelecto, charme, status social e financeiro, não entrem em cena. Não é de surpreender, desta maneira, que os primeiros estudos para investigar os correlatos neurais do amor romântico no ser humano tenham sido a entrada sensorial visual. Esses estudos mostraram que, quando olhamos para o rosto de alguém com quem estamos profundamente apaixonados, um número limitado de áreas no cérebro está especialmente envolvida em sua ativação, independentemente do sexo. Entre elas encontram-se estruturas corticais e subcorticais: córtex insular, córtex cingulado anterior, hipocampo, partes do córtex estriado e núcleo accumbens (Zeki, 2007).

A paixão do amor cria sentimentos de alegria e euforia, de uma felicidade que muitas vezes é insuportável e certamente indescritível. E as áreas que são ativadas em resposta a esses sentimentos românticos são amplamente co-extensivas com as regiões do cérebro que contêm altas concentrações de um neuromodulador associado a recompensa, desejo, dependência e estados eufóricos, ou seja, dopamina. Um aumento na dopamina está associado a uma diminuição em outro neuromodulador, a serotonina, que está ligada ao apetite e humor. Estudos demonstraram uma depleção de serotonina nos estágios iniciais do amor romântico para níveis comuns em pacientes com transtornos obsessivo-compulsivos. Afinal, o amor é um tipo de obsessão e, em seus estágios iniciais, geralmente imobiliza o pensamento e o canaliza na direção de um único indivíduo (Zeki, 2007).
O mais impressionante, para que “a loucura” de amor ocorra, é necessário a desativação de áreas corticais importantes. Desta maneira, não é surpreendente dizer que esse núcleo de áreas do cerebrais citadas acima têm conexões ricas com outros locais do cérebro, incluindo as corticais. Entre elas estão as conexões com o córtex frontal, parietal e temporal médio, bem como um grande núcleo localizado no ápice do lobo temporal, conhecido como amígdala. O aumento da atividade no “núcleo romântico” das áreas se reflete em uma diminuição da atividade, ou inativação dessas zonas corticais (Zeki, 2007).

Sabe-se que a amígdala está envolvida em situações de medo e sua desativação, quando os indivíduos veem fotos de seus parceiros, bem como durante a ejaculação masculina, implicando numa diminuição do medo. Além disso, a paixão envolvente do amor romântico é refletida por uma suspensão de julgamento ou um relaxamento dos critérios de julgamento pelos quais avaliamos outras pessoas, uma função do córtex frontal. Essa zona cortical, junto com o córtex parietal e partes do lobo temporal, também costumam estar envolvida em emoções negativas. Sua inativação nos estados românticos – quando confrontada com o ente querido – suspendemos os julgamentos críticos que, de outra forma, usamos para avaliar as pessoas (Zeki, 2007).

O córtex pré-frontal, a junção parieto-temporal e os pólos temporais constituem uma rede de áreas invariavelmente ativas com ‘imaginação’ ou ‘teoria da mente’, ou seja, a capacidade de determinar as emoções e intenções de outras pessoas. É digno de nota, do ponto de vista da “união no amor”, que uma característica da imaginação em termos da “teoria da mente” é distinguir entre o eu e os outros, com o potencial de atribuir diferentes conjuntos de crenças e desejos aos outros e a si próprio. Para obter uma “unidade do amor” imaginada, de modo que o eu e o outro se fundam, esse processo de imaginação e, portanto, a distinção entre o eu e o outro, deve ficar inativo. Assim, o julgamento crítico dos outros também é frequentemente suspenso com a confiança que se desenvolve entre os indivíduos e certamente com o profundo vínculo que se desenvolve entre os pares amorosos (Zeki, 2007).

Aqui, então, há uma base neural não apenas para dizer que o amor é cego, mas para o conceito de “unidade no amor”. Não é de surpreender que muitas vezes nos apanhamos questionando com a escolha do parceiro que alguém faz, perguntando futilmente se eles deixaram de lado seus sentidos. De fato, eles deixaram. O amor é frequentemente irracional porque os julgamentos racionais são suspensos ou não são mais aplicados com o mesmo rigor (Zeki, 2007).

Fontes:
Song, H., Zou, Z., Kou, J., Liu, Y., Yang, L., Zilverstand, A., dâ€TMOleire Uquillas, F., Zhang, X., 2015. Love-related changes in the brain: a resting-state functional magnetic resonance imaging study. Front. Hum. Neurosci. 9. doi:10.3389/fnhum.2015.00071
Zeki, S., 2007. The neurobiology of love. FEBS Lett. 581, 2575–2579. doi:10.1016/j.febslet.2007.03.094

Back To Top